Discurso do presidente Bashar al-Assad da Síria ao Corpo Diplomático

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Discurso do presidente Sírio Bashar al-Assad realizado no último dia 20 de agosto para o corpo diplomático de seu país.

Transcrição traduzida pelo coletivo Vila Vudu e publicada no Oriente Mídia.

Senhoras e senhores, diplomatas e funcionários do Ministério de Relações Exteriores,

É um prazer reunir-me com você, no dia em que abrem seu Congresso, que oferece importante ocasião para partilhar pontos de vista e experiências, discutir futuras políticas de Estado e propor ideias novas que ajudem esse Ministério a cumprir cada vez mais efetivamente seus deveres.

Essa reunião é importante por causa da aceleração da dinâmica dos eventos no mundo e na região, especialmente na Síria, e porque os meios de comunicação modernos ou tradicionais não substituem essas reuniões presenciais, cujo objetivo é configurar visões unificadas e formular nossas posições. É reunião particularmente importante, dada a complexidade da atual situação na Síria.

Estão em curso várias guerras paralelas em solo sírio

De fato, essa guerra na qual vivemos já há anos demonstrou que estão em curso várias guerras paralelas em solo sírio. Guerras planetárias e regionais feitas por mãos sírias, árabes e estrangeiras; o que absolutamente não significa que todas essas forças beligerantes tenham chegado por acaso ao confronto bem aqui, em terra síria. Ao longo de sua história, a Síria sempre foi um alvo. Quem controle a Síria ganha importante capacidade para influenciar no cenário mundial ou no equilíbrio internacional.

Para não deixar nada no ar, como alguns dirão que fazemos, basta lembrar mais uma vez a Batalha de Qadesh em 1274 aC. Culminou no primeiro tratado de paz construído entre os faraós e os hititas que se encontraram a sudoeste de Homs. Desde esse momento, os faraós entenderam que a segurança do império passava necessariamente por controlar essa nossa região. Há muitos outros exemplos dessa luta pelo controle da Síria que cobrem todo o período da ocupação otomana e que se seguiram à partida do ocupante francês. Hoje, ainda somos parte dessa luta.

Por isso é muito superficial dizer que essa guerra seria efeito de posições que a Síria tenha tomado, com o Ocidente resolvendo ‘corrigir’ o Estado sírio. Por mais que essa simplificação seja verdadeira, é apenas parte de realidade mais ampla relacionada ao conflito internacional e a tentativas para mudar ou estabilizar equilíbrios internacionais, por meios militares ou políticos e segundo as respectivas consequências econômicas ou geográficas. Em outras palavras, pela criação de novos Estados, fazendo sumir Estados existentes ou modificando fronteiras.

Para o Ocidente, esse conflito é preciosa oportunidade para acertar contas e subjugar países que se tenham rebelado contra a hegemonia ocidental nas últimas décadas. Dentre esses países estão Síria, Irã, a República Popular Democrática da Coreia, Belarus, etc. Nem à Rússia, uma superpotência não algum país emergente, é permitido revoltar-se contra a hegemonia do Ocidente.

Ocidente político e conflito global entre duas forças

Quando falo de “o Ocidente” falo no sentido político do termo. Não vou listar os estados ‘ocidentais’, todos nós sabemos quem comanda o Ocidente, assim como todos conhecemos esse “Ocidente político” – provavelmente com Estados localizados no extremo da Ásia – nada tem a ver com política, mas faz como se tivesse. É portanto sobre esse Ocidente que falarei hoje aos senhores e senhoras.

Esse Ocidente enfrenta hoje luta existencial, não porque algum inimigo deseje destruí-lo – esse inimigo absolutamente não existe –, mas porque sente que está em declínio o agradável período de sua hegemonia não contestada desde o desmonte da União Soviética. Esse declínio é acelerado cada vez que os Estados rebelam-se contra a tal hegemonia. Porque o hegemon ocidental crê que possa prolongar indefinidamente a própria hegemonia, bastando para isso reprimir todos os Estados rebeldes.

E hoje o Ocidente vive em estado de histeria, que se reacende sempre que sente que algum Estado quer participar como parceiro nas decisões internacional, em qualquer campo e em qualquer parte do mundo. É falta de confiança. Mas falta de confiança que resulta em usar cada vez mais força, menos política, menos razão, ou absolutamente razão alguma.

Porque o Ocidente recusa parcerias, não importa de onde venha. A única opção é depender. Nesse sentido, os EUA não são parceiros nem de seus aliados ocidentais. Os EUA designam papeis aos ‘parceiros’, especificam orientações, dão ordens, cada passo estritamente traçado ao longo e ao lado da linha norte-americana. Como recompensa, os EUA lhes jogam migalhas econômicas.

Acrescente-se a esse cenário que nos EUA o presidente não é criador de políticas, mas apenas executor, o que se vê hoje mais claramente que nunca. Quem realmente concebe as políticas são os lobbies, os bancos, grandes fabricantes de armas, as grandes empresas de petróleo, gás e tecnologia, dentre outros lobbies, que comandam os funcionários democraticamente eleitos, mas que governam no exclusivo interesse da classe governante. São os lobbies que constituem o Estado ou o regime.

Mas aqui falarei do “regime norte-americano”, não de Estado – como nos acusam de fazer –, porque Estados respeitam os valores do próprio povo, cumprem suas obrigações com o povo, respeitam a lei internacional, respeitam a soberania das nações, respeitam os princípios da humanidade e, por fim, respeitam-se também eles mesmos. Mas o “regime” nada respeita, só trabalha a favor da elite governante, seja elite financeira ou alguma outra.

Assim que o “Estado profundo” nos EUA não governa em parceria com o presidente, mas deixa a ele apenas uma margem muito estreita; o presidente dos EUA e sua equipe não trabalham em parceria com os europeus, mas lhes deixam apenas uma margem muito estreita; e os europeus unidos não são parceiros de seus agentes e clientes em nossa região e no mundo, porque o “Estado profundo” também lhes deixa margem muito estreita, e nem o próprio “Estado profundo” é parceiro de quem quer que seja, pelo mundo.

Daí se configura, hoje, um conflito entre duas forças. Uma delas trabalha a favor do que interesse às elites governantes, mesmo que isso a leve a violar todas as leis e normas internacionais e a Carta das Nações Unidas, mesmo que isso a leve a assassinar milhões de pessoas em qualquer ponto do mundo. A outra daquelas duas forças confronta tudo isso e trabalha para preservar a soberania dos Estados, a lei internacional e a Carta das Nações Unidas, porque entende que são leis e normas que visam à estabilidade mundial e, por isso, são de seu interesse.

O que temos hoje é o resultado das forças hoje em oposição. E se fôssemos falar da situação árabe nessa resultante, teríamos de dizer que pesa zero, que os árabes são como inexistentes na cena política internacional. Por isso não vejo necessidade de falar sobre isso.

O “projeto ocidental” falhou, mas a guerra continua

Além das forças e dos equilíbrios do momento, e à parte quem vença e quem perca, sempre são os países menores os que pagam preço mais alto nesse tipo de conflito. Na Síria, pagamos preço terrível por essa guerra, mas o resultado é o fracasso do projeto ocidental na Síria e no mundo.

No que nos diga respeito, aos sírios, esse “projeto ocidental” tem obviamente vários aspectos, mas, sua essência era pôr a Fraternidade Muçulmana para governar todo nossa região árabe e o Oriente Médio. Porque a Fraternidade Muçulmana representa posições religiosas, acabam encarregados de usar a religião para encobrir uma sociedade e uma rua de crentes, o que os põe na mesma direção que os interesses ocidentais. Esse, precisamente, sempre foi o papel dessa fraternidade.

Contudo, falar do fracasso do projeto ocidental não implica que tenhamos vencido a guerra. Na realidade e sem exagero: eles fracassaram, mas a guerra continua. Para onde nos levará a guerra? Quando afinal poderemos falar de vitória? É outro tópico. E por isso temos de falar com precisão: eles fracassaram até aqui, e nós ainda não triunfamos, porque sinais de vitória são uma coisa, vitória é outra.

Haverá quem diga que eles alcançaram seu objetivo, porque destruíram a Síria. O que estou dizendo, simplesmente, é que o objetivo deles nunca foi destruir a Síria. O objetivo deles era tomar o país intacto, como era, apenas subordinado e submisso, pronto para ser desintegrado e desaparecer. E por isso, no que tenha a ver com perdas e ganhos, repito hoje o que disse em 2005: o preço de resistir é sempre muito mais fácil de pagar, que o preço de capitular.

Naquele momento, falavam da árvore que se curva na tempestade, mas volta a ficar ereta quando o bom tempo volta. Eu disse a eles que não se trata de tempestade, não é tempestade, é um tanque que arrasa tudo por onde passa e arranca a árvore do chão. Nessas circunstâncias, curvar-se ou não se curvar nada significa. A única solução é fortalecer as raízes para que não se deixem arrancar e quebrem o tanque.

Para nossa grande lástima já se passaram doze anos, e ainda há quem use a mesma linguagem, sem ter aprendido coisa alguma, apesar de a tal tempestade não ter arrefecido depois da guerra do Iraque, que levou à guerra Irã-Iraque em 1980, seguida pela entrada no Kwait, depois a invasão do Iraque em 2003, e a mesma tempestade continua a soprar, violenta, sobre nossa região e sobre a Síria.

Assim se vê que não se trata de tempestade, nem de árvore, nem de tanque. O que há é uma guilhotina erguida acima de todas as cabeças em nossa região, uma guilhotina que já trabalhou muito e ceifou milhões de almas. Nesse caso, de nada adiantará que alguém se curve. É preciso ou tirar os pescoços do alcance da guilhotina, ou destruir a guilhotina. Não há outra solução.

Esse falar de repetição, como fala de papagaio, não cabe aqui. Os eventos aí estão e provam. Dou-lhe um simples exemplo: em 2002, quando tomamos posição contra a guerra do Iraque, não o fizemos apenas como posição de princípio contra a invasão, mas contra o que já estava em preparo e viria e era mais perigoso do ponto de vista do sectarismo e do federalismo que se vê hoje na Síria.

A arma sectária

Desde aquele tempo, víamos que o que acontecia no Iraque nunca fora mera invasão do país ou tempestade passageira, mas outro plano, diferente, que já estava em andamento por três décadas, entrando na quarta. Diante de slogans sectários e pela partição da Síria, compreendemos imediatamente que nos submeter em nome de algum “pragmatismo político” era pôr nosso pescoço na guilhotina. Por isso sempre nos opusemos àquela guerra.

Mas, se se comparam as repercussões atuais da guerra do Iraque, e as que se ouviram imediatamente depois da invasão, veremos que são muito mais dramáticas hoje. As repercussões crescem, em vez de retroceder, por que tudo isso é um plano. Quando se compreende essa imagem, compreende-se que táticas e pragmatismo superficial, como alguns nos sugeriram, não podem ter lugar na nossa realidade atual.

Gostaria que todos compreendêssemos que o que estamos vivendo não é estágio isolado, mas desdobramento conectado a tudo que aconteceu, ao longo de várias décadas. Perdemos o melhor de nossos jovens e uma infraestrutura que nos custa muito dinheiro e suor de várias gerações. Mas, em troca, ganhamos uma sociedade mais saudável e mais harmoniosa. O que lhes digo é verdade, não palavras ao vento, para agradar a um ou outro. Essa harmonia é o fundamento da coesão nacional, independente de crenças, ideias, tradições, hábitos, concepções e opiniões. Harmonia não implica homogeneidade, mas complementaridade entre todos. Essa complementaridade é que leva a uma só cor nacional, que forma a união nacional de todas as crianças de um mesmo país.

Haverá quem conteste: “Mas de que união nacional falamos aqui, quando sempre se ouve um discurso sectário?” Eu responderia a que esse é discurso que já ouvimos logo depois dos crimes da Fraternidade Muçulmana nos anos 1980s e não durou. O que importa não é o que se diga, mas o que há na alma. De fato, se essa “dimensão separatista” de que se falou em diferentes círculos de nossa sociedade fosse real sentimento das almas, a Síria já teria caído há muito tempo, e a chamada “guerra civil” sobre a qual a mídia-empresa ocidental não se cansa de falar seria fato consumado.

O primeiro ano da guerra foi o mais perigoso, porque havia ali uma “dimensão sectária”, embora limitada, mas presente de algum modo nas próprias almas, como fogo vivo por baixo das cinzas. Se se tivesse disseminado entre os sírios apenas uns poucos anos depois do início da guerra, nossa realidade teria sido provavelmente ainda mais perigosa.

Hoje porém como se pode ver, a coesão da sociedade síria é, sim, nossa realidade. A Sociedade desempenha o papel essencial, um papel de acumulação ao longo da história. Quanto às verdades e o Estado, elas com certeza tem um papel a desempenhar, à luz das lições que conseguimos extrair da guerra. Mesmo assim, se a sociedade síria não fosse, por sua natureza e sua história, antissectarismos, a Síria não teria resistido como resistiu.

Nesse contexto, o que acontece é uma situação transitória, e temos de distinguir entre reações e convicções. Há uma reação confessional, é verdade, mas não há condenação nesse quesito; e há grande diferença entre uma coisa e outra.

O melhor exemplo dessa guerra é a reação a um projeto de Constituição que fala de uma República Síria, não mais de República “Árabe” Síria. Ah, quantas vezes o arabismo foi insultado nessa guerra, porque alguns árabes, e mesmo uma grande parte dos árabes, traíram, enquanto outros não foram de grande ajuda. Bastou que a mídia falasse de remover a palavra “árabe” para que aqueles mesmos árabes se ponham a fazer tanto barulho. Assim se confirma que na maior parte do tempo estamos lidando com reações, e vocês, diplomatas e funcionários do Ministério de Relações Exteriores, devem permanecer vigilantes quanto à terminologia que seja empregada, sem se deixar enganar por aparências.

As táticas e vaivéns do Ocidente

O resultado dessa resistência (da Síria) e o preço que pagamos por ela são também as mudanças que vimos acontecer nas declarações ocidentais, que não acontecem porque a consciência humana ocidental tenha afinal despertado e recuperado a saúde, e afinal o Ocidente tenha compreendido que a Síria é o lado oprimido. O Ocidente fez as mudanças que fez por causa da resistência do Povo, do Estado e das Forças Armadas da Síria. E também, claro, por causa do apoio que recebemos de nossos aliados.

(O Ocidente) não mudou o que mudou porque se tenha convertido à moralidade da civilização ou à boa ética, porque jamais se viu sinal disso, mesmo antes da guerra. Mas essa é a realidade em campo na Síria, e a realidade em campo também nos próprios países deles, e isso, sim, obrigou o Ocidente a mudar suas posições. Agora, não passa uma semana, um mês, sem que se tenha notícia de ataque terrorista. E esse é o resultado direto da estupidez do Ocidente no processo de decisão e de garantir apoio ao terrorismo na região. Essas são as realidades que forçou o Ocidente a mudar as próprias posições, mesmo que só parcialmente, de maneira ainda tímida e sem convicção. Mas todas as mudanças foram impostas ao Ocidente.

A mudança de posição contudo não significa mudança de política. O Ocidente, como as serpentes, muda de pele conforme a situação. Primeiro, falaram de apoiar o movimento popular que nunca reuniu mais de 200 mil pessoas pagas (pelo Ocidente e pelo Golfo), em todo o território sírio, país com 24 milhões de habitantes.

E depois de terem tentado de tudo, com armas introduzidas clandestinamente no palco, para perpetrar massacres e fomentar a sedição, o Ocidente fracassou. Foi quando passou a apoiar abertamente vários grupos armados, mas falsamente denominados “a oposição”, como máscara, quero dizer, aqueles grupos armados foram apresentados como “moderados”, vale dizer, como não extremistas. Foram chamados de “oposição” para que ninguém visse que se tratava de terroristas.

Quando esse projeto fracassou e os terroristas foram expostos pelo que são – terroristas – ante a opinião pública mundial e aos olhos da opinião pública regional e local também nos próprios países deles, então mudaram novamente de versão. E começou o pretexto “humanitário”. Estamos atualmente nesse ponto,

Em resumo, trata-se sempre de encobrir os fatos, sob manto do mais absoluto silêncio, enquanto terroristas avançam, atacam, massacram e assassinam civis. Mas quando o Exército Árabe Sírio avança e faz pesar a guerra sobre os terroristas, então, de repente, começam o choro e as lamentações e intervenções para nos deter, sempre sob o pretexto de slogans supostos humanitários para deter o derramamento de sangue, para garantir a segurança dos comboios de ajuda e outras incontáveis desculpas que nós sírios conhecemos bem. O verdadeiro objetivo é criar oportunidades para que grupos armados se reorganizem, armem-se novamente, voltem a se sentir motivados, ou para levar reforços até eles, para que retomem suas ações terroristas.

Na verdade, todas essas várias táticas que os terroristas empregaram durante essas etapas jamais nos enganaram, em caso algum. Desde o primeiro dia, reconhecemos o terrorismo; e desde o primeiro dia atacamos o terrorismo, no primeiro estágio, no segundo e no terceiro, e continuaremos a fazê-lo, enquanto houver terroristas na Síria. Quanto à mídia e à guerra psicológica que conduzem nos últimos vários anos, não poderia de modo algum, nem por um segundo, nos influenciar de modo a nos distrair de nosso objetivo, a saber, de combater o terrorismo, nem poderiam jamais no levar na direção do medo ou da hesitação.

Iniciativas que nascem dos traidores e das más intenções

Esse objetivo de combater o terrorismo jamais foi obstáculo para nossa ação política. Todas as ações, iniciativas ou propostas que não tenham o objetivo de combater o terrorismo são absolutamente sem valor. Assim, a luta contra o terrorismo é o objetivo e ao mesmo tempo a base de cada uma de nossas ações. E enquanto for assim, essa base será a referência e a bússola que nos guia. Significa que nenhuma daquelas manobras terá efeito contra nós.

Eis porque, sobre esses fundamentos e essa convicção, tratamos com grande flexibilidade as várias iniciativas propostas desde o primeiro dia da crise, por mais que já soubéssemos que a maioria delas eram baseadas em más intenções.

O objetivo daquelas iniciativas era alcançar resultados específicos que não poderiam ser alcançados mediante atos terroristas. E, como todos sabem, levaram a resultados modestos, ou, para falar linguagem não diplomática, levaram a absolutamente nada. Por quê? Porque nossos interlocutores ou eram terroristas, ou agentes deles a serviço de potências estrangeiras, ou as duas coisas. Recebem dinheiro dos patrões deles, e não dizem sequer uma palavra que não tenha sido aprovada pelos mesmos patrões e é possível, até, que levem as ordens tatuadas na língua.

Dito de outro modo, na prática, dialogamos com escravos. O que se poderia esperar desse tipo de diálogo? O que caberia esperar deles, quando, a cada reunião, a cada conversa, direta ou indireta, eles propunham tudo que correspondesse aos interesses de estados estrangeiros, inimigos da Síria, e contrariasse os interesses do povo sírio, sempre contra a unidade territorial de nossa pátria?

Esses grupos pagos por estrangeiros – falo hoje muito francamente, porque depois de quase sete anos, já não há como usar linguagem diplomática, nem, como aqui, em reunião de diplomatas. Claro que conhecemos essa verdade. Sabemos que esses personagens e esses grupos são fantasmas, seres imaginados, sem peso – recentemente, eles também descobriram que não têm peso significativo e que não passam de ferramentas que se usam só uma vez, e são descartadas no lixo. É como equipamento médico que só se usa uma vez, abre-se a embalagem, usa-se e vai tudo para o lixo, com a diferença essencial que os terroristas nunca foram esterilizados, e já chegaram contaminados à Síria, a ponto de não haver reciclagem possível.

Curioso é que recentemente, nossos ‘interlocutores’ começaram a falar sobre erros da revolução. Ao longo do ano passado, artigos e declarações falaram da revolução deles como se fosse pura e imaculada, tanto quanto os terroristas, também todos puros e imaculados, apenas vez ou outra maculados pela militarização da revolução, às vezes porque eles próprios abriram o espaço deles a extremistas, e por aí vai.

Discordo deles nesse ponto e creio que todos aqui concordarão comigo. Eles não cometeram enganos. Fizeram o que vieram para fazer. Receberam a tarefa de colaborar e cumpriram as ordens que receberam. Nesse campo, alcançaram quase a infalibilidade em termos de disciplina, dedicação e lealdade, com profissionalismo irretocável. Mas cometeram alguns erros: o primeiro, quando acreditaram que o senhor de escravos preocupava-se com o bem-estar do escravo. O segundo, quando acreditaram que povo que não serve a nenhum amo, que é dono do próprio destino, como o povo árabe sírio, aceitaria submeter-se a traidores e colaboracionistas daquela laia. O terceiro erro foi terem dito que a revolução fracassara.

A verdade é que a revolução não fracassou. Ela é hoje modelo de sucesso e muito nos orgulhamos dela. Mas não falo da revolução deles, falo da nossa. Falo da revolução do Exército Árabe Sírio contra os terroristas, e da revolução do povo sírio contra colaboradores e traidores.

Imaginaram que tivessem o monopólio do uso do termo “revolução”, que se converteu numa espécie de título igual a tantos outros, e cujo uso seria proibido aos demais: o Professor Revolucionário, o Médico Revolucionário e tal e tal. Diante disso, muitos patriotas sírios tomaram aversão àquela expressão, apenas porque foi monopolizada por nossos inimigos. Nada disso. A palavra “revolução” parte de nosso idioma, sempre nos orgulhamos dela e não a passamos adiante para ninguém. O fato de o inimigo chamar tudo e qualquer coisa de revolucionário nada acrescenta ao que as coisas realmente são. Quantos têm nomes de Profetas [Que a Paz Esteja com Eles], sem que tenham sequer vestígios de fé? O mesmo se aplica a eles. Apresentarem-se como revolucionários não os torna revolucionários. Hoje lhes dizemos claramente: os verdadeiros revolucionários são a elite patriótica, a elite humana e a elite moral. Vocês são só lixo, moralmente e na relação com a pátria.

As iniciativas de Astana, Erdogan e as zonas de desescalada 

Assim como respondemos com flexibilidade para promover iniciativas de diálogos, acolhemos positivamente iniciativas para a cessação da luta, ainda que soubéssemos que os terroristas se aproveitariam dessas iniciativas para nos enganar (traindo os próprios compromissos), como fizeram várias vezes. Mas nossas forças estavam alerta.

Daí a questão: se os resultados das reuniões são zero e se o outro lado não honra seus compromissos, por que perder nosso tempo? Porque desde o início da crise jamais deixamos passar qualquer oportunidade para pôr fim ao banho de sangue, mesmo quando a esperança era mínima, para preservar os inocentes.

A partir dessa posição, participamos dos encontros em Astana, com uma clara visão nacional e grande confiança em nossos amigos, Irã e Rússia. Mas e quanto ao terceiro parceiro, a Turquia?

Não vemos a Turquia como avalista ou parceira no processo de paz e, claro, não confiamos na Turquia. A Turquia é país que apoia terroristas. Tudo que a Turquia garante, garante para os terroristas. E a verdadeira razão pela qual a Turquia participa do Congresso em Astana é que Erdogan não tinha qualquer outra opção. Os terroristas caem por toda parte, derrotas sucessivas e escândalo, também por causa de suas relações com terroristas. Assim sendo, participar do processo de Astana por um lado dá-lhe uma espécie de cobertura, e também permite que Erdogan proteja terroristas. Ele já fez isso antes, como vocês sabem, bloqueando várias sessões, para proteger os terroristas.

Por outro lado, a participação de Erdogan nos encontros de Astana dá-lhe um papel na Síria, um papel que ele busca legitimar, como também a presença de unidades turcas na Síria, quero dizer, busca legitimar a ocupação, onde nossa posição sempre foi perfeitamente clara: qualquer presença individual turca em solo sírio, sem o consentimento do governo sírio, é ação de ocupação.

Tudo isso significa que Erdogan tornou-se praticamente uma espécie de mendigo político à beira da estrada, suplicando que lhe deem alguma função, porque sente o desequilíbrio na Turquia e o escândalo de sua relação com terroristas já perfeitamente descoberta e conhecida em todo o mundo.

E de fato, se Erdogan permanece no poder, não é por seu talento e sabedoria, como alguns tentam fazer crer que seria, mas porque ele ainda tem um papel a representar no quadro de apoio aos terroristas na Síria. Mas se a situação síria pendesse a favor do terrorismo ou de outros grupos que apoiam o terrorismo, Erdogan ter-se-ia tornado inútil, e ninguém apoiaria sua permanência no governo. Quero dizer: ele permaneceu no poder por causa do papel que tem a desempenhar – e é papel destrutivo – nesse momento na Síria.

Um dos resultados de Astana são as “zonas de desescalada”. E já geraram muitas questões. Corresponderiam a um fato consumado, na direção de dividir o território sírio? Beneficiarão os terroristas? Seriam equivalentes a áreas protegidas?

A verdade é que, em termos gerais, não são fundamentalmente diferentes de iniciativas anteriores relacionadas à cessação de hostilidades. As diferenças são de forma e dizem respeito à geografia, à formulação e, em certa medida, a procedimentos levemente diferentes comparados a iniciativas anteriores, mas a essência dessas iniciativas é a mesma: todas visam a pôr fim ao banho de sangue, permitir o retorno dos que partiram, canalizar ajuda humanitária, dar aos terroristas uma oportunidade para regularizarem sua situação, de modo que possam voltar a ser parte do Estado. Esses são os aspectos gerais e o objetivo final, que naturalmente inclui a reconciliação nacional, a restauração da autoridade do Estado, a saída dos terroristas que depuserem armas; em outras palavras, a volta ao status normal em todo o território.

Quanto à teoria do “fato consumado”, não há fato consumado enquanto não pusermos fim aos combates. Estamos falando de uma única arena, do mesmo terrorismo, sejam quais forem as diferentes bases entre um grupo e outro e entre uma gangue e outra. Enquanto nós continuarmos a atacar o terrorismo nessa mesma arena, nós o estaremos enfraquecendo em todas as demais arenas. Atacamos num lugar, o terrorismo todo se ressente e enfraquece. E enquanto continuarem os combates, a situação permanece limitada no tempo, não o contrário. Significa que não há “fato consumado”, nem qualquer dúvida sobre se nós, como governo sírio, aceitaríamos algum dia alguma proposta de dividir nosso território, seja pelo motivo que for. E, isso, no caso de proposta desse tipo algum dia vir a ser apresentada, o que ainda não aconteceu.

Quanto a se as áreas de desescalada beneficiarão os terroristas, nem há com o que se preocupar. Já tentaram uma vez, mas nossas forças armadas agiram imediatamente e esmagaram qualquer tentativa desse tipo, mais de uma vez.

Por fim, “áreas seguras” significam que a aviação da coalizão chefiada pelos EUA cria uma área de total cobertura para os terroristas, graças à qual poderão viajar e expandir-se, e até atacar qualquer força que avance para combatê-los. A situação das “zonas de desescalada” é diferente, porque nesse caso todas as partes ficam proibidas de sobrevoar aquelas áreas, mas os terroristas serão atacados não importa para que lado se movimentem; e se violarem o acordo, nós, como governo sírio, temos direito de tomá-los como alvo de nossas operações militares.

E agora, o que acontece? Na prática, estamos meramente participando na formação dos comitês de diálogo que representam o Estado sírio, e os moradores nessas zonas de desescalada formarão outros comitês, para discutir os pontos do acordo a que me referi acima, com o principal objetivo de alcançar a reconciliação nacional. E isso só pode ser feito se os terroristas saírem daqui, e a autoridade do Estado for plenamente restaurada em todo o território sírio. Qualquer coisa menos que isso significará que não alcançamos nosso objetivo.

Eis por que nos interessa que essa iniciativa tenha sucesso, e faremos tudo que estiver ao nosso alcance para que assim seja. Mas também depende das capacidades e da sinceridade de todos, estejam dentro ou fora das fronteiras da Síria, porque atores estrangeiros podem afetar negativamente ou positivamente os atores locais.

 
O que a História conservará de nós, nossos irmãos e nossos amigos

Senhoras e senhores,

Apesar de já mais de seis anos dessa guerra feroz contra a Síria e apesar do fato de que o Exército Árabe Síria, tendo ao seu lado as forças populares e nossos aliados, conduz as batalhas mais ferozes contra os mais formidáveis grupos terroristas apoiados pelos mais países mais ricos e mais poderosos do mundo, apesar de tudo isso, nossas forças têm alcançado sucessos e vitórias, semana a semana, dia a dia, esmagando terroristas e limpando áreas que os terroristas contaminaram com sua presença.

O que já foi conseguido pelos heróis do Exército Árabe Sírio, as Forças Armadas e populares e nossos aliados mostra um exemplo, na história das guerras em toda a história. E o que conseguiram, estimado em luta e autossacrifício, é um farol para as gerações futuras, no sentido de compromisso com a dignidade nacional, o patriotismo e autossacrifício pela pátria e pelo próprio povo. E a verdade… [Aplausos]

E a verdade é que essas realizações é que serviram de alavanca para o andamento da reconciliação nacional que começou há três anos, e elas empurraram muitos indecisos, nos grupos armados, a escolher voltar ao seio da nação. Isso para dizer que, falando com clareza e sem qualquer exagero, esses feitos militares de nossas Forças Armadas foram concretamente a nossa política em ação. Além dos sucessos do Exército, houve o povo sírio. Não fosse a capacidade de resistir de todo o povo sírio, de cada cidadão, onde estivesse, o aluno, o professor, o operário, o funcionário público, o diplomata, todos, em todos os grupos e componentes da sociedade síria, a Síria não teria conseguido resistir a tudo por que passamos, e chegar até aqui, hoje.

Quanto a nossos amigos e aliados, foram parte muito importante dessas realizações e sucessos.

O Hezbollah dispensa apresentações. Não seria possível deixar de registrar nosso reconhecimento. Agradecemos profundamente àqueles combatentes, em todos os momentos tão completamente dedicados a defender a terra síria quanto seus irmãos em armas e em heroísmo, das Forças Armadas Sírias. E quando falamos do Hezbollah, falamos com o mesmo grande orgulho com que falamos de qualquer sírio que defendeu e defende a própria pátria. Assim também reverenciamos os mártires, os feridos e as famílias heroicas do Hezbollah.

Quanto ao Irã, nunca nos faltou a força e a ajuda dos iranianos, desde o primeiro momento. Garantiram-nos armas e quantidades sem limite de dinheiro, equipamento e homens. O Irã mandou conselheiros e estrategistas militares e oficiais para nos ajudar no planejamento de defesa e ofensiva. Apoiou economicamente nosso país, nos momentos de extrema dificuldade pelos quais passamos. O Irã esteve ao nosso lado em todas as questões internacionais e provou a cada instante que é país soberano, único senhor de suas decisões, sempre fiel aos seus princípios e cumpridor dos próprios compromissos, país no qual se pode ter total confiança.

E o mesmo se diga da Rússia. A Rússia várias vezes usou seu poder de veto, associado à sua política, para defender a unidade e a soberania da Síria, em defesa da Carta da ONU e da lei internacional. Como também fez a China. E a Rússia não se limitou a garantir apoio ao Exército Árabe Sírio e a prover tudo de que necessitávamos para nossas operação antiterrorismo. Além disso, a Rússia mandou sua Força Aérea e envolveu-se diretamente no combate contra o terrorismo. Também honramos os mártires russos que tombaram em terra síria.

Por tudo isso, se os sucessos em campo foram alcançados graças à determinação dos heróis das Forças Armadas, do Exército, das forças populares, o apoio direto de nossos aliados, político, econômico e militar, reforçou muito nossas capacidades para ganhar terreno em campo e reduzir as perdas e as dores da guerra. Por tudo isso, todos esses são nossos verdadeiros aliados nessas vitórias na trilha para aniquilar completamente o terrorismo e restaurar a segurança e a estabilidade na Síria.

E se o povo árabe sírio e com ele as Forças Armadas estão hoje reescrevendo uma nova história para a Síria e a região em geral, também haverá muitos volumes a escrever sobre nossos amigos. Sobre o Irã e o Imã Khamenei. Sobre a Rússia e o presidente Putin. Sobre o Hezbollah e Said Hassan Nasrallah. [Aplausos] Os muitos livros que se escreverão darão testemunho de seus princípios, de sua ética, de suas muitas virtudes, para que as futuras gerações também os conheçam.

Novos rumos da política da Síria

Quais os futuros rumos da política síria? Começamos com a regra tradicional que adotamos desde os primeiros dias da guerra, e que repousa sobre dois fundamentos.

Primeiro: continuar a lutas e esmagar os terroristas onde estejam, em cooperação com as Forças Aliadas e nossos amigos.

Segundo: buscar a reconciliação nacional em todos os pontos em que seja necessário, porque já se comprovou como solução efetiva de vários modos e é para nós uma chance de estancar a hemorragia e reconstruir o país.

Um terceiro aspecto é a melhora de nossos contatos externos. Fato é que a opinião pública ocidental mudou. E os senhores e senhoras, no Ministério de Relações Exteriores, estão mais bem posicionados para monitorar os detalhes. E não foi só a opinião pública ocidental, mas toda a opinião pública mundial também mudou. E mudou principalmente porque o povo descobriu, depois de anos, que a propaganda contou mal a história real do nosso tempo.

Durante sete anos, todos os dias repetiu-se a mentira de que seríamos um Estado que mata os próprios cidadãos, sobre gente que apoiaria o povo contra o Estado. Mas Estado e Povo, na Síria, permanecem em pé. Aquele era discurso inconsistente, condenado a fracassar, e ilógico até para as crianças.

As pessoas deram-se afinal conta de que seus líderes mentiam e que a tradicional mídia-empresa ocidental em que tantos tanto confiaram também operava associada às mentiras de estados agressores. Hoje, as pessoas descobriram que a história contada nas ‘notícias’ é falsa, mas isso não implica necessariamente que todos conheçam a história real. Essa tarefa cabe aos diplomatas. Agora que se abriram as portas da verdade, temos de apresentar a história real à opinião pública mundial, com especial atenção à opinião pública do Ocidente.

Um quarto ponto das futuras políticas da Síria tem a ver com promover a economia, especialmente agora que essa reunião coincide com a Feira Internacional de Damasco, que dá forte sinal nessa direção. Promover oportunidades econômicas já existentes e outras que aparecerão em futuro próximo. Nesse ponto, permitam lembrar que a economia da Síria entrou em recuperação, lenta mas firme, apesar de ainda vivermos em estado de sítio quase completo. Também aqui está parte das tarefas essenciais da diplomacia síria.

O quinto ponto é muito importante: temos de nos mover politicamente, economicamente e culturalmente na direção do Oriente.

O Oriente está quase todo tomado, no sentido político, e também, em parte, no sentido geográfico. Esse Oriente hoje, sem especificar países, os quais, como diplomatas, vocês conhecem perfeitamente, o Oriente tem todos os elementos para se desenvolver. Já não se inscreve no “Segundo Mundo”, como no passado, mas é parte já do “Primeiro Mundo” no mais pleno sentido da expressão, pelo menos no que tenha a ver com nossas necessidades de país em desenvolvimento. Não falo só do que de mais moderno a ciência pode produzir. O Oriente, sem dúvida, tem a nos oferecer todos os bens e todas as capacidades de que necessitamos.

Nosso Oriente tem os elementos da ciência e da economia, e tem os elementos da civilização que tanta falta fazem ao Ocidente. Nosso Oriente nos trata como iguais, com respeito, sem tentar nos dar ordens, sem vaidades ou arrogância. É quase precisamente o contrário do que faz o Ocidente, que jamais nos ofereceu coisa alguma, nem nos melhores tempos. Até mesmo as coisas mais simples, como missões científicas, o Ocidente nos negou incontáveis vezes. Assim, quando entende que alguma especialização possa ter impacto significativo no desenvolvimento da Síria, o Ocidente proíbe que nossos especialistas e nossos estudantes sírios tenham acesso àqueles estudos. Assim, absolutamente não devemos confiar no Ocidente. E o que digo aprendi por experiência própria ao longo de 40 anos e especialmente desde a Guerra de Outubro, em 1973.

O Ocidente hoje sofre de paranoia. Se fala de comunidade internacional, se fala dele mesmo, aos olhos dele o mundo é povoado por rebanhos de ovelhas, sem nenhuma sociedade humana organizada. Se corta relações conosco, acredita que nos cortou o oxigênio. Se fecha embaixada, diz que estaríamos isolados, por mais que prossigam as nossas boas relações com dúzias de países. Se somos país isolado, como diz o Ocidente, como é possível reunir nessa sala tantos embaixadores sírios que trabalham pelo mundo? E as muitas embaixadas estrangeiras na Síria? A Síria absolutamente não está isolada, como diz o Ocidente. A arrogância os faz ver o que não existe.

Recentemente começamos a ouvir sobre a possibilidade de serem reabertas embaixadas de alguns países do Ocidente que agiram como inimigos da Síria e aliaram-se aos terroristas. Há quem diga que aqueles países reabrirão as embaixadas em troca de nossa cooperação em segurança, ou dizem que só aceitaríamos cooperação em segurança se abrissem suas embaixadas. Curioso é que ninguém nos tenha consultado para saber se aceitamos que reabram as embaixadas. O discurso, nesse caso, sugere que os sírios estaríamos sentados à beira da estrada, à espera do parto, quando aquelas embaixadas afinal abrissem as portas. Se não todas, pelo menos algumas. Aí então, afinal, talvez sintamos nossa legitimidade devolvida, depois de a termos perdido quando ‘eles’ se foram. Ou quem sabe conheceríamos o sentimento de reencontrar nossa identidade, nossa legitimidade, quando afinal ‘eles’ reabrirem suas embaixadas na Síria. Esses países pensam assim.

A verdade é que jamais houve qualquer conversa nessa direção. Jamais dissemos que aceitaríamos cooperação na segurança, em troca de reabrir embaixadas. O que dissemos é que nenhum relacionamento é possível, incluídas as questões de segurança, no caso de “cobertura política”, porque isso exige sólido relacionamento político – e não pode haver sólido relacionamento político com países que apoiem terroristas.

Por isso somos e sempre seremos bem claros: não haverá cooperação de segurança, não haverá reabertura de embaixadas, sequer qualquer papel para alguns países que recentemente começaram a dizer que participarão na resolução do problema na Síria, enquanto esses países não romperem completamente todas as relações com terrorismo e terroristas, de modo explícito, claro, sem ambiguidades. Só depois disso será possível começar a falar sobre reabrir embaixadas.

Essa estupidez ocidental não é nova. Ainda recordo o tema das deserções do qual jamais falei em qualquer discurso ou declaração, e que acaba de ser evocado numa pergunta que respondi. Esse assunto está hoje esquecido, por isso é bom relembrá-lo, especialmente porque dissemos que não é assunto de grande importância para nós, mas é.

De fato, considerem que dúzias, alguns dizem centenas, de pessoas sem qualquer sentimento nacional ou pagos por agentes estrangeiros, estivessem escondidos nos vários órgãos e serviços do Estado, e que não soubéssemos nada sobre eles e não houvesse como distinguir os que realmente respeitam o próprio país e o próprio povo, e os que não, e nós absolutamente sem pista alguma. Considerem que ao longo de todos esses anos, essas pessoas estivessem no coração de organizações do Estado, agindo como uma quinta coluna e conspirando a favor dos interesses daqueles estados estrangeiros. Qual era a situação? Com toda a certeza, era situação muito difícil. Como poderíamos dizer [àquelas pessoas] ‘você não é patriota e não é confiável, saia já do seu emprego, para que o Estado sírio possa trabalhar corretamente’ (uma vez que não sabemos quem são)?

Fato é que os líderes ocidentais, em sua infinita estupidez fizeram exatamente isso. Não apenas os traidores deixaram os empregos dentro do Estado sírio, como deixaram o país. Foi operação de limpeza sem precedentes, que nós não teríamos como executar. Verdade é que, sejam quais forem as diferenças entre pessoas e entre países, sempre há pontos de convergência. Posso portanto dizer que o Ocidente apoiou essas deserções, e nós não nos opusemos. Nesse ponto, convergimos! Não divergimos em tudo, e concordamos nesse ponto.

Claro, há também as sanções contra a Síria, mesmo que secundárias. O Ocidente também quis castigar a Rússia com sanções, mas o Ocidente perdeu mais que a Rússia. No final, essa grande potência imediatamente compensou as perdas, graças a relações que mantém com outros países e aumentou a produção interna graça a uma economia já em diversificação, com seu território imenso e grande variedade de recursos naturais. No final, foi mais uma vitória dos russos.

Assim se vê que, pelo menos há 20 anos, o Ocidente só faz exibir a própria estupidez, consequência da arrogância que o caracteriza. O Ocidente tem enormes recursos e excepcionais capacidades em todas as áreas, mas por efeito da visão estreita, não extrai daí vantagens igualmente excepcionais. Eis porque caminha de erro em erro, de problema em problema, de um beco sem saída, para outro, e tudo acaba recoberto numa só densa carapaça de mentiras. É como se o sistema político ocidental tivesse esgotado a própria capacidade de produzir estadistas reais.

Quanto à sociedade ocidental, é inegável que é rica e avançada em todos os aspectos da vida. A ninguém ocorreria negar esse fato. E é capaz de produzir ainda mais e melhor. Mas aquele sistema político só admite que cheguem aos controles da vida política umas poucas ditas ‘elites’, econômica, financeira, ou outras. Daí o triste resultado que hoje se vê.

Quais os pilares sobre os quais está plantada a política síria, especialmente nesse estágio de guerra?

Primeiro: Tudo, o futuro e o destino da Síria depende 100% dos sírios, não 99,9%, mas 100%. Até nossos amigos já adotam confiantemente esse discurso. Consideramos bem-vindos todos os conselhos, mas a decisão final será síria, tomada pelos sírios.

Segundo: A unidade territorial da Síria é inalterável e absolutamente não admite debate ou discussão.

Terceiro: A identidade nacional síria é inquestionável, mas a essência dessa identidade é o arabismo em seu significado civilizacional de unificação de todas as crianças do país e de todos os setores da sociedade.

Quarto: Não permitiremos, sob sejam quais forem as circunstâncias, que inimigos, adversários ou terroristas tentem obter pela via política o que não conseguiram em campo, pela via terrorista.

E o último ponto. A guerra não mudará nossos princípios. A causa palestina permanece essencial para nós. Israel ainda é o inimigo que ocupa nossos territórios. E nós sempre apoiaremos qualquer resistência na região, sob a condição de que seja autêntica, não falsificada, como é o caso de alguns ditos ‘movimentos de resistência’.

Senhoras e senhores,

Nessa guerra combatemos em muitos fronts e várias áreas para derrotar a conspiração do terror e restaurar a paz e a segurança na Síria. Temos de nos dar conta de que a longa duração da guerra é, por um lado, explicável pelo medo que sentem nossos inimigos e adversários de ver a Síria tornar-se mais forte do que foi antes da guerra. Eis por que temos agora de trabalhar muito seriamente para construir o futuro da Síria sobre bases sólidas: uma Síria livre, forte, independente, onde o terrorismo, os extremismos, agentes estrangeiros e traidores em geral não tenham lugar. E por isso, precisamente, temos de nos conscientizar firmemente de que o trabalho que fizermos será a garantia de nossa fidelidade aos valores, às tradições e aos interesses da Síria e dos sírios.

Desejo grande sucesso na missão das senhoras e senhores e nessa sua Conferência.

Que a Paz Esteja com Vocês. [fim da transcrição]

Os textos aqui reproduzidos não expressam integralmente a opinião do Blog.
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