O mundo não é mais o mesmo

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Em escala global, há uma mudança ocorrendo. O mundo antes hegemonizado pelos Estados Unidos da América – EUA, marcado pela unipolaridade que emergiu com o fim da URSS há mais de uma década cede lugar para o surgimento de novos polos de poder, como China, Rússia e o que passamos a conhecer como BRICS. Essa transição foi marcada por crescentes conflitos e disputas, em um contexto de declínio político, econômico e social dos EUA em contraposição ao seu poderio militar.

Ocorre que já podemos dizer que esse mundo unipolar deixou de existir e um mundo multipolar se consolidou. Novos elementos e contradições estão em curso e precisam ser melhor examinadas, sob o risco de se repetir artificialmente esquemas antes utilizados no contexto de um mudo bipolar, como na guerra fria.

A crise do capitalismo e suas consequências aceleraram esse processo ao ponto em que podemos considerar que a forma de dominação com a qual o capitalismo funcionou nas últimas décadas encontra severos limites. O esgotamento do caráter que a globalização financeira assumiu, levou a uma forte rejeição popular ao que se tornou símbolo maior desse processo: a política econômica neoliberal e as políticas chamadas identitárias.

Sobre a política neoliberal é sintomático considerar que até o FMI e antigos centros universitários que a propagaram no passado, hoje a deixam de lado por uma razão simples: ela não responde mais aos problemas econômicos e não consegue resolver a crise em curso. Sua consequência em todo o mundo é um profundo desemprego e empobrecimento das pessoas, enquanto uma ínfima minoria no sistema financeiro acumula impensáveis níveis de riqueza.

Sobre a questão de como as lutas sociais foram capturadas por movimentos fragmentários, pode-se resumir esse processo em uma ideia simples. Os movimentos passaram a achar que para falar com determinadas parcelas da população, como os negros, as mulheres e as pessoas LGBT, era necessário falar e apenas apresentar pautas especificas para eles, gerando cada vez mais especifismos, como por exemplo, para falar com as Mulheres Negras e LGBT.

Os movimentos sociais e organizações da esquerda perderam o que os caracterizaram historicamente: a capacidade de apresentar pautas solidárias que unissem o conjunto das sociedades. Ocorre que quando são lançadas bandeiras amplas, quando se fala para toda a sociedade, também se está falando para as mulheres, os negros, LGBT e quem mais quiser. Isso não significa que a luta contra o machismo, racismo e o preconceito deva ser esquecida, mas que elas necessitam ser carregadas por movimentos e bandeiras que despertem a solidariedade de toda sociedade, que permitam a mobilização de todos em torno de questões concretas que os unem.

Está em curso uma mudança no caráter da própria forma de dominação, sem ao mesmo tempo abrir mão da velha política de guerra das grandes potências. Após uma derrota dos EUA e das potências europeias na Síria, sob o custo de centenas de milhares de vidas e da dilaceração daquele país, os holofotes se voltam agora sobre a Venezuela.

É certo que o governo Maduro padece de erros na condução da Venezuela, embora nem de longe se trate do caso de um ditador sanguinário que ataca seu próprio povo, como a mídia apresenta em constante propaganda travestida de notícia, repetindo a mesma estratégia de comunicação utilizada para justificar a invasão de outras nações.

O que está em jogo é a manutenção da soberania da Venezuela e dos países da região, incluindo o Brasil. Nesse sentido a declaração do Grupo de Lima foi importante por afastar o interesse de intervenção direta dos EUA e de setores extremados da própria Venezuela e da região.

Repetidamente se tem exortado esquemas que mais respondem ao mundo bipolar da guerra fria do que ao atual contexto em que vivemos. Por mais que semelhanças existam, há novos elementos e efetivamente o mundo não é mais o mesmo. Urge entender esse processo.

Servidor público, estudante de economia, militante político, esposo da Mariana e pai da Capitu.
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